Por Caroline Paulart
O fotógrafo André Tezza, morador de Campo Largo desde setembro de 2024, está novamente entre os três melhores fotógrafos do mundo no Sony World Photography Awards 2026, um dos concursos mais importantes e prestigiados da fotografia internacional.Ele é finalista em duas categorias profissionais da premiação, tanto na Architecture & Design, como na categoria Latin America Professional Award, prêmio geral destinado aos fotógrafos da América Latina. A edição de 2026 recebeu mais de 430 mil imagens, enviadas por fotógrafos de mais de 200 países e territórios.
As fotografias selecionadas farão parte de uma exposição internacional na Somerset House, um dos mais importantes centros culturais Londres. A cerimônia oficial do prêmio acontecerá no dia 16 de abril, e a exposição será aberta ao público no dia 17 de abril, com posterior circulação em uma turnê internacional e inclusão das imagens no livro oficial da premiação.
A série que levou o fotógrafo à final da premiação internacional se chama “Mercadinhos” e reúne imagens de pequenos mercados familiares localizados na periferia da Região Metropolitana de Curitiba, em cidades como Campo Largo, Campo Magro e Colombo. Segundo Tezza, a ideia do projeto surgiu a partir da observação cotidiana da paisagem urbana da região. “Moro em Campo Largo desde setembro de 2024 e comecei a perceber que não só aqui, mas em várias cidades da Região Metropolitana, ainda existem muitos mercadinhos e mercearias de bairro que resistem ao tempo.”
O fotógrafo contou que, após ter conquistado o segundo lugar mundial na mesma premiação em 2025, com imagens da arquitetura de Belize feitas durante uma viagem de motorhome pela América, decidiu voltar o olhar para algo mais próximo de casa. “Depois de fotografar lugares tão distantes, achei interessante olhar para aquilo que está ao nosso redor. Esses mercadinhos fazem parte da paisagem e da memória das cidades”, afirmou.
Para selecionar os locais que seriam fotografados, ele iniciou uma pesquisa online, buscou endereços de estabelecimentos e utilizou ferramentas de mapas digitais para observar previamente as fachadas. “Notei que muitas dessas mercearias tinham fachadas vermelhas, o que acabou se tornando um elemento visual muito forte nas fotografias. Além disso, muitos estabelecimentos têm nomes próprios, que são homenagens a filhos ou familiares, e isso revela muito sobre quem construiu esses espaços e ou ainda têm uma conexão com a história do bairro e com a religiosidade”, pontua.
A arquitetura dos estabelecimentos também revelou um padrão curioso, que é a proximidade entre o comércio e a residência dos proprietários. “Em muitos casos, o mercadinho é anexo à casa do proprietário ou fica no mesmo terreno. Isso mostra uma relação muito direta entre trabalho, família e comunidade”, disse.
Essa característica levou o fotógrafo a interpretar esses espaços como exemplos de arquitetura vernacular, conceito que descreve construções formadas ao longo do tempo a partir das necessidades práticas da comunidade, sem necessariamente a intervenção de um arquiteto ou engenheiro para a construção daquele local. “É uma arquitetura que nasce da vida cotidiana. Ela não é planejada por grandes projetos, mas construída aos poucos, conforme as necessidades das pessoas”, afirmou.
Conversas com os proprietários
Durante o processo de fotografia, Tezza também conversou com alguns proprietários dos estabelecimentos retratados. Segundo ele, muitos se surpreenderam ao perceber que os locais do cotidiano poderiam ser vistos como objetos de interesse artístico e documental.
“Consegui mostrar para eles uma beleza que às vezes passa despercebida na rotina. Muitas vezes a timidez ou a simplicidade do olhar faz com que as pessoas não percebam o valor estético desses lugares”, relatou.
Essas conversas também ajudaram a aprofundar o conceito apresentado na inscrição do prêmio. Para participar da premiação, além das fotografias, os candidatos precisam apresentar um texto explicando a proposta do trabalho. “Esse texto é uma das partes mais importantes do concurso, mas muitas vezes acaba negligenciado. No meu caso, entender a dinâmica desses mercadinhos, o atendimento, os clientes que se tornam amigos e a história da comunidade foi fundamental para construir o conceito do projeto”, explica.
De acordo com o fotógrafo, os estabelecimentos retratados representam também uma forma de resistência econômica e social. “Esses comércios familiares convivem com a chegada das grandes redes varejistas, mas continuam existindo porque têm algo que as grandes lojas não têm, que é a confiança e a relação direta com a comunidade. Na região ainda existe essa humanidade dos mercadinhos de bairro. Em muitos lugares do mundo isso já desapareceu”, finaliza.
André Tezza é mestre em Filosofia e doutor em Comunicação. Durante cerca de duas décadas atuou como professor universitário nas áreas de Comunicação e Design. Entre 2023 e 2024, percorreu as Américas em uma longa viagem de motorhome, atravessando o continente do Alasca à Patagônia. A experiência consolidou sua pesquisa visual sobre território, arquitetura vernacular e identidade latino-americana.
Em 2025, conquistou o segundo lugar mundial na categoria profissional Architecture & Design do Sony World Photography Awards, com fotografias da arquitetura de Belize feitas durante essa travessia. Atualmente, o fotógrafo desenvolve projetos autorais e editoriais a partir da região de Curitiba e Campo Largo.
Foto: André Tezza



