Caroline Paulart
No terceiro episódio da minissérie “Vozes da Quaresma”, a Folha de Campo Largo apresenta a história do Velhinho de São Silvestre, narrada pelo historiador e jornalista Aldir Buiar. O relato foi apurado pelo próprio pesquisador e integra o livro História do Distrito de São Silvestre.
A história começa em meados de 1967, quando um velho andarilho apareceu na localidade dos Batistas, em São Silvestre, pedindo água e comida na casa de Davi José Pereira Neto e Joaquina Pereira. De barba branca, bordão na mão e poucas palavras, ele recusou pouso e disse que dormiria no mato. Na manhã seguinte, após uma noite de chuva forte, o casal o encontrou deitado sob uma árvore, sem estar molhado. Ao ser questionado, apenas respondeu: “Onde eu fico não chove”.
Dias depois, o velho orientou um chá de erva-doce com sal para Jonas, filho da família, que estava doente. No dia seguinte, o menino teria amanhecido curado. A notícia se espalhou rapidamente e atraiu moradores da região, depois romeiros de vários estados brasileiros e até do Paraguai. Para muitos, aquele homem seria a reencarnação de São João Maria, personagem cercado de fé e mistério na tradição popular do Sul do país.
Segundo os relatos reunidos por Aldir Buiar, o Velhinho costumava receitar remédios caseiros e ervas para quem o procurava. Entre os elementos mais citados estão o chá, as sementes e plantas medicinais, além de raízes e cipós buscados na própria região, como o inhame e o cipó-cruz. Em torno dele se formou uma espécie de peregrinação popular em busca de cura e aconselhamento, reforçando a imagem de curandeiro que utilizava recursos simples da natureza, associados à fé dos que chegavam até ali.
Segundo Aldir Buiar, a crença tem ligação com a figura dos monges João Maria, associados à Guerra do Contestado e à religiosidade popular dos sertanejos. A semelhança física e os costumes do Velhinho de São Silvestre reacenderam essa memória coletiva, transformando a rotina pacata do distrito. Com a chegada constante de romeiros, a economia local também mudou, com agricultores deixando temporariamente a lavoura e o movimento intenso de veículos, carroças e peregrinos. Inclusive, um guincho trabalhava na localidade para desatolar os veículos, pois nem a chuva ou a lama impediam as pessoas de irem atrás da cura do Velhinho de São Silvestre.
Outro detalhe curioso preservado na memória dos moradores é que, com o aumento da devoção, foi construída uma cabana para que ele pudesse viver no local. O Velhinho também recebia doações em dinheiro dos visitantes, e, segundo relatos da época, parte desses recursos teria sido usada para a construção de uma capela na região dos Batistas e para a compra de imagens sacras. Mesmo cercado por tanta movimentação, ele nunca revelou sua origem nem sua verdadeira identidade, o que contribuiu para aumentar ainda mais o mistério em torno de sua figura.
A trajetória do Velhinho terminou em 18 de outubro de 1969, quando ele foi encontrado morto perto da cabana onde vivia. A morte foi confirmada pelo Instituto Médico Legal. Ainda assim, sua identidade nunca foi esclarecida. O mistério permaneceu, assim como a fé de muitos moradores e visitantes, que continuaram procurando o riacho e a terra do local mesmo depois de sua morte.
